Monday, October 3, 2011

Discóbolo


Foi no Inverno de Dezembro de 2009 que os vi pela primeira vez. "Two Dancers" tinha acabado de ser lançado para o mercado e a euforia era tremenda. E não era infundada. O álbum estava magnífico, e ao que se dizia, em concerto, os tipos de London/Leeds/Kendal não abriam mão da espiritual teatralidade. E isso eu não queria perder. Fomos cedo, bem cedo, e conseguimos ficar na segunda fila da sala 1 do São Jorge (onde em tempos cheguei a ver o "Alvo em Movimento"). Mas isso são recordações de outros tempos. No dia 04 de Dezembro a minha vontade era outra. Queria ouvir, e ver, o maior número possível de músicas do segundo álbum dos Wild Beasts. Estava profundamente arroubado por aquela que eu achava ser uma das obras primas da história da minha música...

E foi com "This Is Our Lot" que, para sorte de todos os espectadores, os rapazes iniciaram o seu ilustre primeiro concerto em Portugal. E quanto a mim, não podia ter começado de melhor forma.


O primeiro disco dos ingleses, "Limbo, Panto", gerou alguma admiração: barroco, excêntrico, pedante de uma forma que só os ingleses sabem. Poderia ser apresentado como trabalho de conclusão de curso de Belas Artes. O segundo, menos exibicionista (e, se quiserem, um tudo mais convencional), fez-me mergulhar na banda e assistir a praticamente todos os vídeos disponíveis no YouTube, ler entrevistas, encomendar o disco, e recomendá-lo a pelo menos cinco pessoas num período de menos de três horas. Estava oficialmente apaixonado.

O que faz de "Two Dancers" um belíssimo disco é exactamente a capacidade de soar a misterioso e subtil, dentro de um formato assumidamente comercial, acessível. É um caso muito raro de álbum concensual que não perde a ternura ou a dignidade. Um dos traços mais interessantes do disco de estreia deles – canções que identificam sintomas de horror em situações do quotidiano – é ressaltado de uma forma ainda mais incómoda. Trata-se de um disco pop de aparente placidez, de fácil digestão, mas profundamente perturbado e enigmático.

Estamos acostumados a ficarmos deslumbrados com discos que nos transportam para ambientes desconhecidos, fantásticos. Mas quantas são as vezes que encontramos álbuns que nos surpreendem simplesmente por interpretarem mundos muito nossos, a partir de perspectivas inusitadas? "Two Dancers" merece um lugar na prateleira de Boxer, ou de um Antics.

As crónicas quase surrealistas dos Wild Beasts são povoada por temas pescados de noticiários (The Fun Power Plot, que abre o disco, é inspirado numa manifestação de pais pela custódia dos filhos), personagens marginais (há quem interprete Hooting and Howling como o perfil de um skinhead) e imagens de sonho (When I’m sleepy). Uma Inglaterra siderada, mas plausível (daí o susto). Esse lirismo de olhos bem abertos combina com a sonoridade cristalina do disco, que troca os excessos pela polidez em melodias circulares, efeitos sonoros discretos e um jogo vocal malabarístico entre Hayden Thorpe e Tom Flemming e riffs poéticos de guitarra, que chegam apenas quando precisamos desesperadamente deles.

Em apenas 37 minutos, não há faixas esquecidas. Todas elas têm algum momento extraordinário: do emocionado "Hooting and Howling" ao arranjo assimétrico de "This Is Our Lot" (uma belíssima canção juvenil na tradição dos Smiths), às cavernosas vocalizações de "All The King’s Men" à delicadeza singular de "Empty Nest", a banda prova que é possível tirar o máximo proveito dos limites que se podem impor a um disco.


Wild Beasts, This Is Our Lot

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