Thursday, January 10, 2013

Cartas do Anónimo

Demorou o tempo de fumar um cigarro enrolado pelos dedos da minha persistência, a apaixonar-me por aquelas águas calmas gélidas, que descem dos montes brancos de açúcar cristalizado. O dia estava a acabar e os meus sapatos estavam quase no fim, de tanto andarem sem horas marcadas. São peixes!-gritou um miúdo loiro alvo, de pele sedosa. Procurei por coisas como eu pensava que seriam os peixes de água doce gélida. Ainda fui à outra margem, mas a luz fugia-me entre galhos secos e o ruído dos carros ao longe, com faróis metralhadoras. Vi, tentei ver, mas os olhos começaram-me a parar. "Estás velho meu amigo. Já não corres o que corrias..." Arrefeci a ânsia e sentei-me num conjunto de três rochas banco. Estavam frias, boas para dobrarem a vontade de ver os bichos escamados. E sem aviso postal nem tiro de salva, uma garrafa da noite anterior. Uma garrafa de um fim de semana bêbado tonto e triste. Uma garrafa de vinho ao alto, a boiar, encaixada entres as pedras da margem. E ali estava, a mexer-se devagarinho. Balançava de um lado para o outro, ainda bêbada, às voltas em si mesma, à mercê das pequenas ondas feitas por pequenas coisas. É de vidro, mas o espaço das moléculas macias da água doce não a deixam partir-se em inúteis bocados de nada. "Não te preocupes garrafa. Já falta pouco para a ressaca terminar."

2 comments:

Anonymous said...

Noooossa... estamos tão lá. Boa escrita, boa música - boas influencias.

Anonymous said...

Apanhas-te a garrafa?