Wednesday, October 12, 2011

Cartas do Anónimo


Talvez não fosse o divertimento que eu mais gostasse, mas era sem dúvida um dos mais emblemáticos. Tinha um cheiro especial. A acústica era opaca e abafada. Os manequins já estavam velhos e toda a gente os conhecia. Os mais reguilas até os cumprimentavam com uma palmadinha nas costas. No Comboio Fantasma a noite ainda ficava mais noite. De vez em quando, um clarão inusitado, de baixo das rodas de ferro que trilhavam em marcha lenta, carris de esses rudes e mal dimensionados. Gritava-se e assim se espantavam os males da mente. Era uma altura em que ainda acreditávamos em quase tudo. Sem filtros, de coração puro e aberto. A viagem que tinha todas as condições para ser um autêntico pesadelo, era antes um desenrolar de sentimentos fortes e apaixonados. Davam-se mãos na azafama do suspense. Bocas que se juntavam pela primeira vez, escondidas das luzes e do olhar dos outros amigos. Era sobretudo muito intenso! Ninguém consegue bem explicar a magia daquele minuto, minuto e meio. A magia só se quebrava quando irrompíamos novamente para de baixo dos holofotes e do fumo dos assados. Nesse momento a noite mais parecia dia...

The Doors, Ghost Song

2 comments:

FUCK the FOXES said...

...old europe needs a new * May 68 * right now !!!

Anonymous said...

Surpreendida. E melancólica. Essas sensações, descritas dessa forma, deixam a melancolia de pelo menos aí, dessa forma, ja nao as podermos viver.
O riso nervoso, o riso no meio dos gritos, os beijos no meio do riso, as maos apertadas e suadas... e uma mao fresca, uma boca fresca, um olhar brilhante possível de encontrar entre a luz de um e outro holofote.
Porque o brilho no meio do escuro é ainda mais brilhante.