Monday, February 28, 2011

Guest Box

O espaço que se segue é da inteira responsabilidade de

Brian Jones, Janis Joplin, Jimmy Hendrix, Jim Morrison ou Kurt Cobain.

Todos membros do afamado clube dos 27. Aquele selecto clube de grandes vultos musicais que viram a sua criatividade interrompida, aos 27 anos, em mortes que tanto tiveram de trágicas como ocorreram na sua maioria em estranhas circunstâncias. Para além de terem sucumbido no auge da sua produção criativa - quase não tendo espaço ou tempo para errar (ou na gíria popular "tendo tido tempo para fazer merda"), as condições em que ocorreram as suas mortes, conferem a todos estes artistas, uma aura quase mitificadora, elevando-os ao estatuto de ícones. Ícones de gerações diferentes. Ícones que com a morte, atingiram um patamar inatacável, apagando-se ou diminuindo-se ao mínimo, qualquer falha ou crítica que se lhes pudesse apontar.

Há quem prossiga toda uma vida em busca de glória e fama. Há quem simplesmente, quem com a melhor das intenções, queira deixar uma marca. E há quem simplesmente esteja alheado de tudo isto, prosseguindo a sua habitual vida casa-trabalho-casa (quando o há), copos ao fim de semana (por vezes durante a semana), como se nada disto interessasse. Bola, reality tv e séries para alhear o pessoal.

A um dia dos 28, com os 30 ali mesmo ao virar da esquina, não deixo de pensar nisso. Não porque queira fama e glória, mas porque entendo que cabe a cada um gizar o seu próprio destino. Assim como avaliar se a sua acção tem sido compatível até agora, com o potencial/propósitos que sabe que pode atingir. E cabe a si, meramente a si, dar o impulso/contributo que ache necessário. Para atingir a sua felicidade, num instinto que em última análise será sempre egoísta, mas que o fará contribuir para o bem comum. O bem geral. Porque o ciclo virtuoso (não confundir com vicioso) de uma sociedade apenas é possível tendo em conta esta última vertente.

Sim, sou um idealista, que tem cada vez mais levado com choques de realismo (há quem lhe chame realidade) como se descargas, de um qualquer aparelho de fibrilação fossem. E não quero ser o tipo do bar. Aquele que anos depois se gaba se ter quase feito algo. Mas não fez, por uma qualquer razão que irá hiperbolizar, para desculpabilizar em definitivo (chamo-lhe camuflar), uma falta de acção que deveria ter partido de si. Também nunca gostei de rotinas. Mas a verdade é que é tão fácil cair nas mesmas. Aliás, cada vez mais me convenço que as rotinas são necessárias. Em última instância, meramente por uma questão de sanidade mental. Provavelmente a acompanhar este texto, teria que aqui estar uma música de National ou de alguma outra (muito boa) banda semelhante que falasse da angústia de uma classe média e de uma geração que cresceu cheia de expectativas, mas que neste momento se encontra apertada. Ponto parágrafo neste breve apontamento.

Retornando ao texto, durante muito tempo, pensei que Bradley Nowell, vocalista de Sublime, tinha morrido aos 27 anos de overdose de heroína. Engano meu. Morreu aos 28. Não que fosse um autor muito versado, não que Sublime seja uma banda que musicalmente seja excepcional, mas o seu contributo, a sua influência em tantas outras bandas, o seu estatuto quase icónico entre as comunidades skater e surfer entre outras (assim como a minha estima pessoal pela mesma e inexistência de referências à banda neste excelente blog), motivaram a que levassem a redigir umas breves linhas (que já não são assim tão breves quanto isso) acerca da mesma.

Sublime, para quem não conhece, é uma das bandas, que a par de Green Day (Dookie - o primeiro CD que comprei com as minhas poupanças aos 12 anos) ou Offspring (recordo com especial carinho o álbum Smash), mais contribuiu para o reavivar do punk, em termos mainstream, durante a década de 90, nos EUA. Oriundos da Califórnia do Sul, acompanhando uma explosão de bandas oriundas desse mesmo estado, ao que se convencionou chamar punk californiano, numa terceira grande onda de bandas deste género, muito ligadas à comunidade skater e surfer (em contraponto à toada mais musculada ocorrida em NY por esta altura, muito mais ligada à corrente hardcore), entre as quais destacamos NOFX, Pennywise, Lagwagon, Mad Caddies entre muitas outras.

Para além de nítidas influências do punk de bandas anteriores como Bad Religion, Black Flag ou mesmo Ramones, houve uma fusão de estilos com sonoridades Ska, Dub e Reggae e é neste contexto que bandas como No Doubt (cuja vocalista Gwen Stefani - para muitos a rainha do Ska - nasceu na mesma cidade e andou no mesmo liceu de Bradley, sendo amiga do mesmo) ou Sublime aparecem, misturando todas estas sonoridades, numa toada mais alegre e muito peace and love, drug-friendly em muitos dos casos, tornando extremamente apelativa para toda uma geração, em especial após o desaparecimento de Kurt Cobain e ao refrear de toda a onda grunge que se seguiu.

Bradley, que curiosamente nasceu a 22 de Fevereiro - igualmente meu dia de anos - junta-se aos outros dois elementos de Sublime - Bud Gaugh e Eric Wilson - e fortemente influenciado por música jamaicana, introduz elementos ska e reggae ao repertório do duo, que até aí ouvia e tocava exclusivamente punk. Após um rápido sucesso inicial local - fruto de uma fama granjeada por concertos cheios de peripécias, a banda opta por criar uma pequena editora de raiz, a Skunk Records, lançando o 40 oz. to Freedom (para mim, um dos melhores álbuns da banda a par do homónimo e já póstumo Sublime), conseguindo apenas alguma rotação e notoriedade, quando uma rádio de LA, pega num dos hinos do álbum "Date Rape" e começa a passar o single várias vezes.

Nessa altura, e como ocorreu a muitos artistas no início da década de 90, já Bradley tinha iniciado a sua relação com heroína, algo que segundo o pai se devem à necessidade de obter um escape criativo. Aliás, numa banda abertamente drug friendly, esta dependência e toda a parafernália relacionada com o tema, deram origem a muitas músicas que rapidamente se tornaram hinos como Smoke Two Joints, Pawn Shop, Garden Groove. Em maio de 1996, e a meio de uma tournée (sempre as tournées) que realizavam pela Califórnia, Bradley é encontrado morto num quarto de hotel com uma overdose de heroína.

Isto tudo ocorre, semanas depois da banda ter acabado as gravações do seu primeiro álbum já numa editora de renome, álbum que ficará com o nome da banda e que venderá 17 milhões de cópias.

O terceiro single é este Doin' Time, um tema que podemos classificar de lounge/dub, que fala da impossibilidade de mudança de vida de um homem, entre outros aspectos, usando como pano de fundo, o tema Summertime de George Gershwin da ópera "Porgy and Bess". Pretendo assim, com este (longo) texto, efectuar uma segunda homenagem. Nascido no final de séc XIX, Gershwin é simplesmente um dos mais profícuos autores/compositores musical de peças, operetas, árias, musicais etc. A sua obra é vasta e foi/tem sido vastamente usada em músicas de jazz, no teatro, em tv, e por uma multiplicidade de diferentes bandas musicais, entre as quais Sublime.

Uma banda que face à sua heterogeneidade e amplitude musical (esta música é exemplo), que face a um som que se pode classificar de alegre, marcou toda uma geração e à qual deixo aqui a minha homenagem, numa altura em que sei que irei ser um gajo mais ou menos. Resta-me apontar aos 33 anos. Creio que até lá terei tempo para preparar a fundação de uma religião ;-)


Sublime, Doin'Time


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